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  • Foto do escritorNegras Evangélicas

Escolhi esperar: a solidão da mulher negra


Falar sobre a solidão da mulher negra é visitar lugares escondidos e dolorosos de nossa alma. O racismo feriu os nossos afetos. O imaginário social construído a partir da branquitude relegou os corpos de negros e negras a desumanização, impondo-lhes lugares de não amor, por meio da exploração de nossos corpos para o trabalho e para reprodução compulsória.


Numa sociabilidade escravocrata não nos foi permitido uma convivência em que pudéssemos acessar o cuidado, a amorosidade e o desejo despretensioso, próprio da pulsão de vida. Esses são alguns elementos, entre tantos outros, das feridas coloniais que ainda se perpetuam nas nossas experiências amorosas-afetivas.


As mulheres negras experimentam coletivamente a solidão afetiva, o preterimento para o amor. Na construção social posta para essas mulheres, elas não são consideradas como prioridade, alvo de cuidado e escolha para o amor. Essa realidade fica mascarada nos ambientes evangélicos, em nossas igrejas, que predomina a máxima do “escolhi esperar” e, por outro lado, o incentivo à oração exaustiva para chegada de um companheiro. Se ainda não chegou é porque ainda não orou o suficiente. Ou quem sabe, Deus ainda não preparou? Essa espera para mulheres que desejam ter um relacionamento, tem sido uma espera amarga, cansativa e desesperançosa. Visto que corpos como os nossos não estão no imaginário daqueles que nos “escolheriam”. Porque esse lugar de solidão imposto para nós, foi estruturado pelo patriarcado branco escravocrata, infelizmente a igreja ainda não se apercebeu da gravidade do pecado do racismo.


Nós não estamos nos comerciais de margarina e nem ocupando o feed do Instagram acompanhadas por alguém, porque sempre estivemos ocupando os lugares de cuidar e nunca o de sermos cuidadas. Falo sobre isso por compreender a partir de bell hooks (2020) que o amor para além das afeições profundas por uma pessoa é antes, e acima de tudo uma ação, que tem relação com a vontade de se empenhar ao máximo pelo interesse da outra pessoa. Nesse contexto tão duro emerge a pergunta: quem ama a mulher negra?


Falar sobre essa temática é uma forma de elaborar e conviver com as feridas, que não nasceram conosco, mas que adquirimos nessa sociabilidade pautada pelo racismo. "Beije sua preta em praça pública" já foi grito do movimento negro. E isso é muito emblemático, demonstra que nem os nossos afetos foram livrados da malvadeza desta sociedade.

Amar uma preta é, portanto, um ato político, é uma forma de subversão, um jeito de dizer que nossos corpos são para o amor e que a amorosidade está presente entre nós e para nós. É preciso dizer e demonstrar isso porque de nós só esperamos uma sexualidade doente para objetificação de nossos corpos. É difícil ocupar o lugar do não-amor.


E, para nós, é mais fácil falar sobre política e abafar o grito da solidão. Mas hoje quero o mais difícil. Quero falar deste lugar e poder acolher todas as pretas que se sentem sozinhas. Quero poder dizer pra elas que a gente se tem e que a amizade-irmandade nos fortalece. Mas, será preciso um esforço para reconhecer os amores que vem das nossas irmãs e irmãos para compensar em certa medida esse vácuo do peito.


Convido-as a rememorar a história de duas amigas, Rute e Noemi que encontram uma na outra o afeto necessário para aquela travessia marcada por dores e solidão. Relembro a todas que o amor bonito vai chegando de dentro pra fora. E que a gente pode chorar, deixar escorrer pelos olhos o que nos dói e que toda nossa dor deve ser acolhida e respeitada. Quando a gente pergunta quem ama a mulher negra, não pretendemos responder, e nem encontrar sozinhas a resolução desse questionamento, queremos envolver todas pessoas da comunidade no processo mútuo em busca de respostas.


Porque o amor enquanto uma ação é capaz de construir um outro mundo possível onde possamos vivenciar uma comunidade de amor. Como disse bell hooks (2020, p. 161) “Não há lugar melhor para aprender a arte do amor do que numa comunidade. Nas comunidades e através dela existe a salvação do mundo.” Convido essa e toda a comunidade a romper com o silêncio da dor da solidão para que possamos abreviar essa esperança.





Aline Martinelss é Mulher preta em movimentos. Doula; Assistente Social; mestra em serviço social pela UFPB e Teóloga antirracista. Mais contadora de história do que teóloga, está empenhada na construção do bem viver por onde vai porque acredita na vida.






Equipe

Escrita de projeto: Débora Oliveira e Vanessa Barboza | Gestão de projeto: Débora Oliveira | Revisão de textos: Carla Ribeiro | Identidade visual e designer: Carolina Barreto | Copywriter: Rafaelle Silva | Site: Anicely Santos e Débora Oliveira | Apoio: CESE - Coordenadoria Ecumênica de Serviço | Realização: Rede de Mulheres Negras Evangélicas





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