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  • Foto do escritorNegras Evangélicas

O Chamado Começa na Empatia

Atualizado: 12 de jun. de 2023


Eu tinha sete anos quando me dei conta do significado da expressão “chamado missionário”, naquela época essa era uma condição para pessoas especiais, com habilidades especiais. E passei um longo tempo na vida, toda a adolescência e boa parte da juventude com esse pensamento e voltada à missões transculturais, e entendia que o meu “chamado” era para o continente africano.


Nesse tempo, sempre saltavam aos meus olhos e ouvidos os vulneráveis da cidade nos caminhos para igreja, da escola, da faculdade, o trabalho e outras atividades cotidianas as pessoas que “passavam necessidade”, que dormiam nas ruas, que não tinham o que comer, as crianças expostas aos perigos da urbe, eram sempre alvo da minha atenção. Nunca me foi possível naturalizá-las como “parte do mobiliário urbano”. Contudo, eu ainda pensava no “chamado missionário” transcultural.


A vida seguiu seu fluxo e então, em 2010 tive meu primeiro contato com a realidade dos adolescentes privados de liberdade. Quando ouvi a respeito da vida daquelas meninas e meninos e um tempo depois, olhei pela primeira vez nos olhos de um adolescente privado de liberdade no sistema socioeducativo no Rio de Janeiro deu-se o meu entendimento. Foi a partir do encontro das nossas humanidades, do encontro dos nossos olhares que encontrei a tão esperada “missão”, ali estava o meu “chamado”. Mas, um momento, àquela altura recém formada na faculdade eu não era, nem de longe, uma daquelas pessoas especiais, vocacionadas que sempre vi nos meses de campanha missionária.


Eu era apenas uma jovem com o desejo de encontrar aquelas meninas e meninos e suas famílias, fazer amizades, conversar, abraçar. E nisso, a meu ver, não havia nada de especial. Foi naquela época que comecei a entender que o “chamado” é para todas e todos, é para mim e para você. Não necessita de qualquer habilidade especial, nem tampouco uma viagem para um lugar distante, ele está ao nosso redor todo o tempo. O trabalho em outras culturas é sim muito importante e, como disse Jesus em Atos 1:8 começa onde estamos, e em muitos casos, pode se dar por completo onde estamos.


Compreendo a cada dia que as habilidades para exercer a missão são aquelas que adquirimos durante a vida. Minha capacidade de perceber e acolher o outro veio da educação e do afeto que recebi de minha mãe que sempre me falava com amor do quanto o pouco tínhamos, tornava-se muito, quando comparado aos que não tinham nada e, precisavam recorrer ao lixo de uma grande rede de fast food que estava no caminho para a escola para ter o que comer.


A capacidade de abraçar as pessoas e o apreço pela fraternidade veio dos abraços que recebi ao longo infância e adolescência, e do ambiente de amor fraternal que construímos e mantivemos durantes os tempos de adolescente em que um sorvete pequeno poderia ser partilhado por até dez pessoas apenas pela alegria de estar juntos vivendo aquele momento.


Hoje, atuando na Casa Mãe Mulher, um projeto autônomo de mulheres de várias denominações que acolhe as mães e familiares dos adolescentes que cumprem medida socioeducativa de privação de liberdade na unidade do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE) em Belford Roxo, baixada Fluminense, em que o grande mandamento é abraçar as mães, acolhê-las e cuidar delas, percebo que tudo o que eu acreditava que precisava para exercer a missão sempre esteve dentro de mim. E aquilo que eu não tenho o Senhor, através do Espírito Santo, está pronto a suprir assim como faz com o alimento para mais de duzentas pessoas semanalmente na Casa Mãe.


Então o que eu tenho a dizer a respeito do chamado é que ele está aí ao seu lado, é aquela pessoa, aquele grupo, que “não passa batido” para você, que sempre atrai sua atenção. E o que você precisa para exercê-lo também está muito próximo dentro de você, forjado por trajetória de vida. Como está descrito em Romanos 1:16


“(...) o evangelho que é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (...) é o evangelho do amor, da amizade, da partilha, do encontro.”


“Achega-te também a nós / Aqui neste lugar / Em meu abraço, quero te dizer Seja bem-vindo / Cada um ver outro ser vir / Na direção de cada um de nós Quando estamos EM / O outro é para nós lugar / Quando estamos COM Acompanhados de alguém / Estamos n’outro e o outro também Altruísta EmComOutro - Deu-se o verdadeiro ENCONTRO” .

- Roberto Diamanso





Liz Guimarães é Pedagoga, Educadora Popular, Educadora Sistêmica. Integrante da Rede Mulheres Negras Evangélicas e da equipe do Projeto Eu escrevo Cartas de Amor. Liz tem oito anos de experiência na atenção a adolescentes, meninas e meninos, em conflito com a lei e privados de liberdade e suas famílias





Equipe

Escrita de projeto: Débora Oliveira e Vanessa Barboza | Gestão de projeto: Débora Oliveira | Revisão de textos: Carla Ribeiro | Identidade visual e designer: Carolina Barreto | Copywriter: Rafaelle Silva | Site: Anicely Santos e Débora Oliveira | Apoio: CESE - Coordenadoria Ecumênica de Serviço | Realização: Rede de Mulheres Negras Evangélicas

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