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O evangelismo com a prática do aquilombamento: construções possíveis

Atualizado: 12 de jun. de 2023


É possível falar de evangelismo e aquilombamento? Uma questão de difícil resposta para a maioria das pessoas, uma vez que dentro das igrejas evangélicas, durante muitos anos, as culturas africanas e afro-brasileiras têm sido extremamente demonizadas, sob uma ótica racista e colonial.


As leituras que realizamos da bíblia são políticas, não em um sentido partidário, mas em uma perspectiva contextualizada, abarcando um viés das visões subjetivas e objetivas que nos perpassam. Sendo assim, interpreto o evangelismo como o ato de levar a palavra de Deus, que é permeada de amor, refrigério e consolo em tempos de aflição. Sendo assim, esse texto abarca a espiritualidade cristã, mas racializando o debate, sem romantizações coloniais.

O que aprendemos dentro das escolas dominicais e sabatinas foi a existência de um Deus branco, ainda que a branquitude cristã insista em dizer que não existe cor dentro da igreja e que somos todos iguais aos olhos do Pai. Esse tipo de afirmativa é uma grande falácia, pois todos nós fomos criados de modo diferente, cuja diversidade foi pensada e minuciosamente desenhada pelo próprio criador.

As origens da bíblia e do povo nela anunciado não são eurocêntricas, mas sim africanas. Fica difícil citarmos na bíblia um personagem branco europeu, pois a geografia e a história não mentem. Porém, a forma de utilização da bíblia pelos colonizadores foi de modo completamente deturpado, institucionalizando o racismo por meio de passagens bíblicas de modo aleatório e descontextualizado, aliando a pureza a brancura, e a maldade a negrura. Lógicas binárias que desumanizam corpos não brancos.

Voltando a prática do evangelismo, pelo fato de não termos letramento racial dentro das igrejas, o que acontece é a reprodução do racismo por omissão como nos anuncia Lélia González, no qual somos sutis com as formas de racismo, evitando embates diretos, e a prática da brancura como redenção se perpetua. Almas negras essas que precisam aceitar a palavra pregada pelo branco salvador, a fim de conseguirem a salvação para as suas almas.

Mas quem não sabe da sua história e das suas origens, pensa em duas alternativas apenas em uma lógica binária: ou o evangelho é branco mesmo e nos embranquecemos para alcançar a salvação, ou o evangelho é colonizador, violento, devendo ser evitado. São lógicas extremas, de quem não realiza o significado de Sankofa, que é de voltar às nossas reais origens e buscar aquilo que foi esquecido.


Um livro escrito por mãos negras, essa é a bíblia, cujo resgate desmistifica a ideia de que todas as pessoas negras com consciência racial precisam repudiar o cristianismo e seguir outras vertentes.

O sentido de coletividade, comunidade e união também fazem parte da cultura africana, estando presente nos princípios bíblicos. O verdadeiro empoderamento somente é possível por meio do coletivo, como nos anuncia Joice Berth, e é com base nessa lógica que compreendo o verdadeiro cristianismo e a prática de um evangelismo negro, sendo anunciado para todas as cores e etnias, no sentido de fortalecimento, resgate de si e cura.

O significado de Quilombo para Beatriz Nascimento, ultrapassa os locais físicos que eram construídos no passado como espaço de fuga, mas diz respeito também ao local onde habito, um espaço que segundo Stéfane Souto, agrega corpos e vai se reconfigurando no decorrer do processo de diáspora, em busca por espaços outros e de reconstrução da própria identidade.


Daí surge a ideia de aquilombamento, que é o ato de aquilombar, de se reunir em coletividade, não necessariamente num espaço fixo, mas se juntar e se fortalecer com demais irmãos e irmãs. Acredito que uma igreja unida com consciência racial, demonstra a prática do aquilombamento, sendo a Comunidade Raízes Afrodescendentes (1), um exemplo de igreja física, que promove o aquilombar e a valorização da cultura negra.


O aquilombar também pode ser em espaços virtuais, existindo muitos deles, como, por exemplo, o África Bíblica Decolonial (2), que é um grupo de leitura bíblica, orações, estudos e de fortalecimento nas redes sociais fundado por mim, em que tive como inspiração o Projeto Redomas (3).

E assim, vamos nos aquilombando e resgatando nossas identidades, tendo consciência racial, mas não deixando nossa fé esmorecer. É possível pregar o evangelho de forma respeitosa, abraçando nossa ancestralidade e manifestando o amor de Deus. Para isso, é preciso se aquilombar, para poder se fortalecer e anunciar as boas novas.




Referências

1 - Rede social da Comunidade Raízes: https://www.instagram.com/raizescomunidade

2 - Rede social do África Bíblica Decolonial: https://www.instagram.com/africabiblicadecolonial

3 - Rede social do Projeto Redomas: https://www.instagram.com/projetoredomas


BERTH, Joice. Empoderamento. Pólen Produção Editorial LTDA, 2019

DE SOUZA SOUTO, Stéfane Silva. Aquilombar-se: Insurgências negras na gestão cultural contemporânea. Metamorfose, v. 4, n. 4, 2020.


GONZALEZ, Lélia. Lélia Gonzalez: primavera para as rosas negras. São Paulo: UCPA Editora, 2018.


RATTS, Alex. Eu sou atlântica. Sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo, Imprensa Oficial, 2006.






Sulamita Rosa é Pedagoga; Mestra em Educação pela Ufac e Doutoranda em Educação pela USP; Pesquisa sobre a interseccionalidade no campo educativo.





Equipe

Escrita de projeto: Débora Oliveira e Vanessa Barboza | Gestão de projeto: Débora Oliveira | Revisão de textos: Carla Ribeiro | Identidade visual e designer: Carolina Barreto | Copywriter: Rafaelle Silva | Site: Anicely Santos e Débora Oliveira | Apoio: CESE - Coordenadoria Ecumênica de Serviço | Realização: Rede de Mulheres Negras Evangélicas


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