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Ruah Nos Criou Para a Existência Plena

Atualizado: 12 de jun. de 2023


“No princípio criou Deus o céu e a terra e a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face da do abismo; e o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. E criou Deus o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn.1:1-2, 27)

Temos acumulado experiências que nos fazem perceber o tempo como uma demarcação humana que delimita passado, presente e futuro. Assim temos aprendido e o calendário cristão é um ótimo exemplo disto. Diversas tradições cristãs têm no calendário cristão a contagem do tempo que gravita em torno do nascimento, da vida, da morte e da ressurreição (e ascensão) de Jesus, o Cristo da Ruah. Entretanto, parentes indígenas há muito compreendem e ensinam que, na verdade, o tempo é ancestral. O espiral é o texto imagético que nos ajuda a compreendermos esse conhecimento ancestral, pois evidencia a circularidade como movimento evolutivo; superando a tendência ao aprisionamento da experiência apenas cíclica, de repetições de padrões.


Faço citação de alguns versículos do primeiro capítulo do livro bíblico do Gênesis, para aludi-lo como uma narrativa sobre as origens de tudo o que existe. Ao fazê-lo, reconheço que há inúmeras narrativas sobre as origens em outras tradições religiosas anteriores ao Judaísmo e ao Cristianismo, e, sobretudo, nas experiências de espiritualidades dos povos originários. No meu fazer teológico tenho reconhecido a Teologia – que em sua etimologia (estudo sobre a origem da palavra), expõe a pretensão humana de estudar Deus, como se nós, criaturas de Deus, tivéssemos alcance para dissecar sua imanência e sua transcendência; como narrativa sobre as experiências humanas em relação ao Sagrado. Assim, proponho aqui um exercício teológico que evidencie e valorize a plenitude da existência plena das pessoas a partir de narrativas bíblicas que afirmam a plenitude da vida humana, para com isso ressaltar que nós mulheres somos imagem e semelhança da Ruah, tanto quanto são os homens.


Ruah é o nome que costumo usar para me referir à Força Criadora, à Energia geradora de tudo que existe, comumente chamada de Deus e de Espírito de Deus (Espírito Santo). Faço-o como exercício contínuo de desconstrução do aprendizado que me fez pensar nessa Força Criadora a partir de um modelo único: o masculino. Ruah, palavra hebraica de origem feminina presente nos textos no Primeiro Testamento desde o livro de Gênesis, foi traduzida como Espírito, palavra masculina que moldou o modo como a narrativa teológica sobre Deus foi (e continua sendo) ensinada pela ortodoxia (doutrina) cristã. Ortodoxia que faz convergir a diversidade de tradições cristãs, silenciando o que aprendemos do diálogo teológico entre Jesus e a mulher samaritana:


“Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”. (João 4:24).


Faço eco à denúncia feita desde da década de 1970, pela filósofa e teóloga feminista estadunidense Mary Daly: "Se Deus é homem, então o homem é Deus, e a mulher lhe deve submissão e obediência”¹, para expor a ponta do fio de um novelo que tece uma trama violenta que historicamente tem negado a humanidade das mulheres, inferiorizando-nos, silenciando-nos, subalternizando-nos, ignorando nossas capacidades, excluindo-nos de espaços de poder e decisão; e comumente minimizando nossa existência à capacidade de gestar e parir vidas, sem considerar nossa existência como plena por sermos quem somos, em nossas especificidades e nossas diversidades identitárias. Pensar Deus como masculino é uma convenção que perpetua ensinamentos de subalternização das mulheres.


Assim como o tempo cronológico é uma convenção, a ambiência religiosa cria convenções que a sustentam. Algumas dessas convenções limitam a existência feminina desde a infância, definindo um modelo único de feminilidade que é aprendido desde o seio familiar a partir da imposição de quais brincadeiras e quais brinquedos são exclusivos para as meninas; da responsabilização pelas tarefas domésticas; de quais vestimentas são adequadas; da idealização do casamento e da maternidade como ideais da vida feminina, dentre outras imposições. As convenções forjadas no meio religioso fazem da religião cadeias que oprimem sobretudo às mulheres. Por isso a teófila, filósofa e teóloga feminista Ivone Gebara há muito nos alerta que “[...] as cadeias religiosas dos meios populares, são cadeias que consolam e oprimem ao mesmo tempo"². Diante disso, promover condições para que as mulheres rompam com essas violências se mostra como muito urgente e necessário.


Quando chamo Deus de Ruah e lanço mão do primeiro capítulo da Bíblia para lembrar que ela, a Ruah, como Criadora, criou a mulheres e homens como sua imagem e semelhança, não estou propondo a mera substituição do masculino pelo feminino, mas intenciono provocar algo fundamentalmente importante: chamar a atenção para a humanidade plena das mulheres; já que numa sociedade moldada para a primazia dos homens, a humanidade desses já está assegurada.


A Quaresma, mas não somente essa demarcação temporal, é tempo propício para forjarmos ações de afirmação da humanidade plena das mulheres. Basta de julgamentos e condenações das escolhas das mulheres. Basta de atitudes condenatórias e punitivas contra as mulheres. Basta de nos culparem e buscarem explicações para justificação das muitas violências contra nossos corpos. Basta de demonização de nossos corpos como se nossa existência fosse lasciva e perigosa, permanente tentação para os homens. Afinal, como a cultura patriarcal tão bem evidencia, os homens são seres dotados de inteligência e capacidade de decisão. Portanto, devem ser responsabilizados por toda e qualquer ação violenta que atente contra a plenitude da vida das mulheres.


Se a religião, como cultura, foi (e continua sendo) capaz de promover e perpetuar padrões de subalternização e de inferiorização das mulheres, banalizando nossas vidas ao ponto de termos o Brasil no sétimo lugar do ranking da violência contra as mulheres; a religião pode e deve promover ambiência de respeito, afirmação e valorização da plenitude da vida das mulheres como dádiva da Ruah. Para isso é fundamentalmente importante a adoção de hermenêuticas, ou seja, chaves interpretativas, que nos auxiliem a encontrar outros fios para feituras de novos tecidos que assegurem o colorido da diversidade da existência das mulheres e afirmem a plenitude de nossas vidas. Contribuem especialmente para esse fim, as teófilas e teólogas feministas negras Maricel Mena Lopez e Cleusa Caldeira.


Se dizemos que somos discípulas e discípulos de Jesus, o Cristo da Ruah, acolhemo-lo como Boa Nova que nos anuncia: "Eu vim para que todas as pessoas tenham vida e vida em plenitude” (João 10:10).


Referências

1 - DALY, Mary. Beyond God the Father. Boston: Beacon Press, 1973, p.19.

2 - GEBARA, Ivone. Uma clara opção pelos direitos das mulheres. São Leopoldo, 25 de julho de 2012. Entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511796-uma-clara-opcao-pelos-direitos-das-mulheres-entrevista-com-ivone-gebara>. Acesso em: 22.02.2023.




Lilian Conceição é Filha e sacerdotisa da Ruah, mulher negra e indígena Fulni-ô, teófila e teóloga feminista antirracista.





Equipe

Escrita de projeto: Débora Oliveira e Vanessa Barboza | Gestão de projeto: Débora Oliveira | Revisão de textos: Carla Ribeiro | Identidade visual e designer: Carolina Barreto | Copywriter: Rafaelle Silva | Site: Anicely Santos e Débora Oliveira | Apoio: CESE - Coordenadoria Ecumênica de Serviço | Realização: Rede de Mulheres Negras Evangélicas


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