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  • Foto do escritorNegras Evangélicas

Vigio tanto que nem sei se Oro

Atualizado: 12 de jun. de 2023


Lendo o romance da Conceição Evaristo: Canção para ninar menino grande, a frase acima anunciada me saltou aos olhos. A frase por um instante me arrancou do enredo apresentado pela autora e me colocou diante do texto bíblico: “Vigiai e orai...”¹. De repente, como uma chuva torrencial, fui inundada por memórias interpretativas desse texto, desde as orientações fundamentadas no punitivismo e no medo, até àquelas alicerçadas no cuidado, para estarmos atentas e não cairmos em situações saqueadoras das possibilidades de experimentarmos de vivências, que nos aproximassem da plenitude, do verdadeiro sentido da existência humana, qual seja: o reconhecimento da bondade e generosidade de Deus, através de nós.


Tudo isto em ebulição dentro de mim, provocada por uma única frase, que estava em meio a tantas letras e expressões tecidas pela sensibilidade, sagacidade e criatividade da autora já mencionada. Fiquei pensando: Por que esta questão está me incomodando, me convidando a pensar sobre ela? De todos os pensamentos que me visitaram um se manteve. É como se ele dissesse: “decifra-me ou eu te devoro”². Aquietei-me e me permiti saborear o que as palavras queriam expressar, me abri para decifrar os sussurros da ancestralidade: “Vigio tanto que nem sei se oro”.


A vida das mulheres negras tem sido de constantes vigilância, de estar atenta, pois o racismo conjugado ao machismo, insiste em nos colocar neste lugar. Essa vigilância constante é extremamente desgastante, conduzindo muitas de nós a exaustão e ao comprometimento de nossa saúde mental. Vigiamos tanto que quando oramos, oramos no movimento. Quando temos um tempinho só para orar, estranhamos a experiência, apesar de entendê-la tão necessária, quanto comer, se alegrar, espantar-se com o belo.


A vigilância para nós não é só ficar esperta, mas significa montar guarda, é atenção 24 horas, pois sair deste lugar é distração e, logo, somos atropeladas pela culpa. Vigiamos tanto que às vezes, não sabemos se oramos.


Somos vigilantes, porque o nosso corpo negro é corpo que se estranha, corpo em suspeita, corpo ignorado, rejeitado, desrespeitado, violentado de formas diversas. Somos vigilantes, porque não temos como proteger os corpos negros dos nossos filhos e filhas, irmãos, irmãs, sobrinhos, sobrinhas. Tantas vezes ficamos vigilantes, de guarda montada até eles e elas retornarem. Nesse momento, mesmo em vigília, oramos. É possível orar e enquanto oramos, vigiarmos? Isso num único movimento? Ou são momentos distintos?

Estar atenta o tempo todo está atrelado ao ser forte o tempo todo. Essa ditadura do estar atenta e ser forte tem comprometido o nosso potencial de existir com dignidade. Isto é um ataque aos nossos direitos como seres humanos, pois nos inquieta, nos desmobiliza saqueia a nossa criatividade, ataca a nossa sensibilidade e interfere na nossa relação com a Ruah, criadora de tudo que é belo e que existe.


O que nos fortalece nesses momentos é saber que não “andamos só”, nunca estamos sozinhas. Desde cedo, os nossos ancestrais cartografaram trilhas libertárias, nos ensinaram as saídas para escapar das práticas racistas, machistas, misóginas. São cargas pesadas demais!


Dentre as trilhas ofertadas pelas nossas e nossos ancestrais, penso ser a oração, a vivência com os coletivos e movimentos – saídas que apontam na direção do aquilombamento. Saber que Deus não comunga com injustiças, que a Ruah é uma incansável aliada na luta por Justiça e que Jesus Cristo é um malungo para todas as horas é um renovo, frentes às injustiças que enfrentamos cotidianamente.


Quando penso em direitos humanos, entendo que todas/os precisam ter sua dignidade reconhecida. Essa é uma condição que não pode ser negociada. Estar em alerta 24 horas, ser forte todo tempo, fere a dignidade. Neste sentido, é válido reforçar: tudo que atenta contra a possibilidade de viver com segurança, afeto, respeito, empatia é indigno para os seres humanos.


Diante do exposto, deixo a seguinte consideração: Só é possível ser humano na relação com a (o) outra (o). A realidade experimentada pelas mulheres negras não resulta de causas naturais, são produzidas por seres humanos, cujos privilégios dão sustentação a uma sociedade injusta e desigual. Que como mulheres negras tenhamos tempo para a contemplação, para descansar, para viver e não simplesmente existir. Enquanto isto não acontece, apesar de todo processo de desumanização, oremos e vigiemos, e neste movimento, que possamos continuar nutrindo a esperança, que em nós, foi semeada pelas (os) nossas (os) ancestrais.




Referências

1 - Evangelho de Mateus 26:41

2- Expressão inspirada na Esfinge Grega.





Valdenice Raimundo é Profa. Dra. em Serviço Social; Docente na Universidade Católica de Pernambuco; Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Raça, Gênero e Políticas Públicas; Integrante da Pastoral da Negritude Rosa Parks e do Coletivo de Acadêmicas Negras Luiza Bairros.





Equipe

Escrita de projeto: Débora Oliveira e Vanessa Barboza | Gestão de projeto: Débora Oliveira | Revisão de textos: Carla Ribeiro | Identidade visual e designer: Carolina Barreto | Copywriter: Rafaelle Silva | Site: Anicely Santos e Débora Oliveira | Apoio: CESE - Coordenadoria Ecumênica de Serviço | Realização: Rede de Mulheres Negras Evangélicas

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